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Vagueando
Vagueava pela praia. Como se não houvesse mais nada. Como se fosse o último lugar de um mundo perdido e distante. Como se tudo fosse o último. E veio a maré baixa. E chegou a maré alta. Alta baixa, baixa alta. Apenas maré.
A introspecção era algo estampado no seu rosto iluminado. Talvez pelo sol. Talvez por qualquer outra iluminação. Um despertar budista?
Não a filosofia não era para aqui chamada. Nada que de “ias”, “ismos”, nem quaisquer outros sufixos.
Estaria apenas a reflectir. Em quê? Para quê? Enfim... Um passatempo.
Mas havia uma revolta latente. Um grito surdo apertado na garganta.
E os personagens começavam a desfilar pelos grãos de areia. “No jobs for de boys”. Riu-se. Agora só empregos para bois, camelos, ursos, galinhas, aves raras, outras de rapina, vermes, viboras. E não se lembrando de mais nenhum termo zoológico, pensou no belo jardim onde se plantara. Nas raízes que criou, nas ervas daninhas que proliferam, e onde jardineiros não entram. As flores de estufa transmutam-se em cactos espinhosos. Há é verdade, esquecia-se dos sapos. Os que se têm que engolir. É normal. Mas quem os engolir também terá que os cagar. Não é assim? E a merda é sempre a mesma. E lá vão as galinhas loucas esgravatar na dita e alguns porquitos espojar-se na mesma. Mas as moscas vão mudando. Se é que isso pode aliviar alguns espíritos mais despertos. Voltou a rir-se. E começou a apanhar conchinhas. É um pouco estúpido. Mas pelo menos...
Lembrou-se depois de alguns umbigos. Os de gabinete. Já que os outros estavam apenas nas barrigas de cada um. Pressupõem-se.
Tanto tempo passado, nisto. Vale mais estar de cu para o ar a apanhar conchinhas. Mas é uma posição perigosa. Mergulhou. Não meteu água.
Agora sobre a areia quente, a temperatura aumentava, e alimentava o desejo de partir. Não para parte incerta. Partir a tromba de alguns não elefantes, mas de outros. Não valia a pena.
Seria a hora de largar tudo? Mudar de vida? Qual vida? A vida é sempre a mesma. Mudar de praia? Bem, ficou por ali.
Pelo menos é sábado. Como se isso fosse muito importante. Bem não estava no jardim zoológico (o tal) já não é mau.
Surgiram espontaneamente os tempos orientais. Hum.... Sentiu que estava alguma mudança e processar-se a passos largos. Mergulhou. Secou. Voltou a casa.
Ouviu música. Sentiu música. Meditou.
Isso era importante na sua vida. O mais importante. Vagueava. Mas sempre seguindo o caminho. Sempre.
Mas onde estão os outros? Parece um caminhar solitário, porque o é. Cada um tem o seu Tao. E
o Tao é igual em todos.
E depois não fez mais nada.
Viu televisão, sem sentido. Adormeceu. Talvez tenha sonhado. Despautérios não freudianos. Não queria pensar em Freud. Lembrou Nietzsche o super-homem, a morte de Deus e do homem.
E chegou a Antropologia filosófica até à hora do jantar. Fez o jantar. Saladas, sopas. Comeu obviamente. Depois lá veio a televisão. E desligou-se.
Quando o sol nasce, e o mau humor se instala, depois de alguns cafés e cigarros, chega a vontade de mudar o mundo. Mas qual deles? Há tantos... Aquele o tal. E ainda é Domingo. Detestava os Domingos.
Mais uma semana igual.
Largar tudo. De um dia para o outro. O dia aproxima-se. Sente-se em cada pulsação, é uma pulsão. O limite avista-se.
Não se sabe se ao longe, se já ali ao fundo. Avista-se.
E chegam as experiências. Dos que nada sabem sobre o método experimental.
E a experiência acaba mal. A revolta, a indiferênça, o vazio. O ordenado mal pago ao fim do mês. Os oportunistas. Não lhe apetece fazer nada. Bestial. Apetece-lhe ser uma besta e dar-lhes vários coiçes. Só para os acordar.
Agora, eu também vou dormir.
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